Denúncia de fraude financeira contra Milei abala relação com Trump, enquanto Argentina enfrenta desafios econômicos e incertezas sobre apoio dos EUA
A relação entre o presidente da Argentina, Javier Milei, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sofreu um abalo nos últimos dias após o FBI denunciar formalmente Milei ao procurador-geral de Justiça dos EUA por suposta fraude financeira internacional envolvendo propaganda de criptomoedas.
O escândalo expõe as fragilidades do alinhamento entre os dois líderes e coloca em xeque a expectativa argentina de obter benefícios econômicos apenas com proximidade política.
Trump, até o momento, não fez nenhuma declaração pública em defesa de Milei. No entanto, postou em suas redes sociais uma frase enigmática logo após a denúncia: “Se imprimir dinheiro acabasse com a pobreza, imprimir diplomas acabaria com a estupidez”.
O comentário gerou especulações sobre um possível afastamento entre os dois líderes, que até então demonstravam forte sintonia ideológica.
Fraude e crise econômica argentina
O escândalo envolvendo Milei pode ter impactos significativos na economia argentina.
Segundo o cientista político e jornalista Bruno Lima, a denúncia piora ainda mais a situação do país, já que a fraude teria causado um prejuízo estimado em US$ 286 milhões (R$ 1,643 bilhão) e afetado cerca de 44 mil pessoas.
“O governo pode perder legitimidade porque estafou a própria base: quem acreditou na moeda Libra [criptomoeda promovida por Milei] é justamente quem o segue na internet”, explicou Lima.
Além disso, a política econômica de Milei enfrenta desafios estruturais.
Ele vem mantendo um câmbio sobrevalorizado e aposta na entrada de capital estrangeiro para segurar a inflação.
No entanto, especialistas alertam que essa estratégia é arriscada e pode desmoronar caso investidores percam a confiança no governo argentino.
Para Eduardo Galvão, professor de relações internacionais do IBMEC Brasília, a ideia de que a afinidade política entre Milei e Trump traria benefícios financeiros concretos sempre foi ilusória.
“A grande questão é se esse alinhamento vai ser suficiente para transformar as intenções de Milei em resultados concretos para a economia argentina”, afirmou.
Desafios políticos e comerciais
A crise política de Milei se intensifica com a sua tentativa de abrir o capital do Banco Nación por decreto, sem passar pelo Congresso. Segundo Lima, essa decisão pode enfrentar forte resistência jurídica e política.
“Acho difícil esse decreto passar sem uma luta intensa. Estamos falando de um banco gigantesco, com presença em todo o país”, apontou o especialista.
No campo comercial, Trump pode se tornar um desafio ainda maior para Milei.
O presidente norte-americano anunciou recentemente tarifas de 25% sobre o aço e o alumínio, impactando diretamente a Argentina, que é o sétimo maior fornecedor de alumínio para os EUA.
Além disso, sua política protecionista pode impor novas barreiras aos produtos argentinos, o que agravaria a crise econômica do país sul-americano.
O professor Eduardo Galvão alerta que Milei corre o risco de descartar a China para agradar Trump e acabar trocando uma dependência por outra, sem ganhos comerciais significativos.
“Se ele decidir se afastar da China para se alinhar totalmente aos EUA, pode perder espaço no mercado global sem ter garantias de benefícios concretos”, ponderou.
O futuro da aliança Milei-Trump
Apesar do alinhamento ideológico, o episódio da denúncia contra Milei e as barreiras comerciais impostas pelos EUA indicam que a relação entre os dois líderes pode não ser tão sólida quanto se imaginava.
Trump tem um histórico de decisões pragmáticas e protecionistas, e Milei pode descobrir que a proximidade política não garante apoio incondicional.
A Argentina, em meio à crise econômica e às incertezas políticas, enfrenta um dilema: manter o alinhamento ideológico com Trump ou buscar um caminho mais equilibrado que preserve seus interesses comerciais.
Enquanto isso, o presidente argentino precisa lidar com os desdobramentos do escândalo financeiro e a crescente insatisfação interna com sua gestão.
CRÉDITO: Sputnik Brasil