Esse ensaio pretende analisar o contexto histórico em que surgiram as histórias em quadrinhos (HQs). De modo rápido e contextual também relataremos o seu início no Brasil e a emergência de novas linguagens.
Histórico
As HQs surgiram concomitantemente com o jornalismo cultural. E seria impossível datar corretamente o surgimento do jornalismo cultural. De acordo com Paulo Viana em seu artigo.
As HQs nos cadernos de cultura. No início do século XVIII, em Londres, alguns ensaístas lançaram as primeiras publicações caracteristicamente culturais, abordando temas que eram discutidos por toda a sociedade. Essa necessidade de levantar e debater assuntos como literatura, música, teatro, moda e comportamento, surgiria junto com o homem urbano, que deixava o campo em busca de oportunidades nas recém industrializadas cidades. O jornalismo europeu alcançaria importância tal qual as revoluções políticas, as descobertas cientificas, a educação liberal ou o romance realista.
É com essa mudança de mentalidade que veio junto com todas as transformações que ocorreram na sociedade devido as inovações e a industrialização que surgi o desejo do homem de comentar sobre questões exclusivamente da vida social, da vida na cidade, da sociabilização.
Com a chegada do século XIX a industrialização é quase completa em quase toda a Europa. Com tal industrialização dominante surgem os grandes ‘’males’’ e as ‘’maravilhas’’ do capitalismo, assim críticas e ensaios feitos sobre esse mundo social ficam cada vez mais influentes.
Com o fim da Guerra Civil, nos Estados Unidos, esse novo conteúdo social, jornalístico e cultural chegaria em meados do século XIX, igualmente a Europa por causa do ‘’boom’’ da industrialização. Nesse momento consolida-se a cultura norte americana e cada vez mais tem o que se falar sobre o social desse país.
HQs no Brasil
As HQs tiveram origem a partir dos desenhos do ítalo-brasileiro Ângelo Agostini, em As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte, publicada na Revista Fluminense, no dia 30 de janeiro de 1869. A história era baseada nas aventuras de um caipira, o Nhô Quim, que chega ao grande centro urbano da cidade do Rio de Janeiro e fica espantado com tamanha a diferença e novidades que ali encontra.
Em 1883 foi publicado na Revista Ilustrada, As Aventuras de Zé Caipora, esta é marcada como a grande obra de Agostini, pela sátira política e social existente. Sua temática misturava aventura e drama, algo inovador para a época, e tinha como principal atrativo o humor nas tiras. Zé Caipora era um personagem muito atrapalhado.
No ano de 1905, no dia 11 de outubro, foi criada a primeira revista para o segmento de HQs, O Tico Tico. Tinha como desenhista responsável Renato de Castro.
Fundada pelo jornalista Luís Bartolomeu de Souza e Silva, a revista se inspirava em padrões europeus de tirinhas, mais especificamente na revista francesa La Semaine de Suzette. Surgiu o personagem Chiquinho, de Loureiro. Também graças à revista, surgiram Lamparina, de J. Carlos, Zé Macaco e Faustina, de Alfredo Storni, Pára-Choque e Vira-Lata, de Max Yantok e Reco-Reco, Bolão e Azeitona, de Luís Sá. Nos anos 30, publicaram o Mickey Mouse, que na revista era chamado de Ratinho Curioso. A tiragem variava entre 20 e 100 mil exemplares, circulando pelas diferentes classes sociais. Só veio perder espaço, no final dos anos 30, quando o Brasil teve um bombardeio de novas histórias norte-americanas sobre super-heróis.
A revista Gibi, publicada pelo Grupo Globo, foi lançada em 1939. Foi a primeira publicação brasileira destinada a discutir o universo dos super-heróis. Por essa revista, o termo no Brasil foi associado a todas as revistas, se tornando um sinônimo.
A Turma da Mônica teve início em formato de tiras em 1959 por Maurício de Souza, mas só a partir de 1970 começou a ser produzida em formato de gibi. Os primeiros personagens foram o cãozinho Bidu e seu dono, Franjinha. Depois vieram os principais personagens que envolvem as histórias, a Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali e Sansão.
O Pererê, criado por Ziraldo em 1960, foi um marco para a cultura popular brasileira. Foi o primeiro quadrinho a ter personagens com temas brasileiros, como o próprio Saci que protagoniza as histórias.
As HQs sempre tentaram acompanhar uma nova realidade que se surgia ao longo dos tempos. Com a ascensão da televisão, as histórias foram perdendo espaço e público, precisando necessariamente mudar o foco de suas publicações para atrair novamente seu público-alvo. A indústria ocidental começou a investir na oriental, com os mangás, que “invadiram” com seus diferentes temas e produtos, mudando a ideia de que são somente infanto-juvenis, existindo muitas opções, cada qual direcionado a um público segmentado.
O uso de desenhos e ilustrações não é uma novidade em jornais impressos no mundo. O pioneiro do uso de personagens feitos a partir de desenhos foi o norte-americano William Randolph Hearts que em 1896 criou The Yellow Kid.
Cultura erudita X Cultura Popular
A cultura erudita é entendida a partir de uma lógica que ela se baseia em estudos, grandes analises teóricas, experimentações e pesquisas. Conhecida como causadora da evolução do homem, pois sempre gera resultado.
Tal cultura é proveniente da elite, pois é necessário dinheiro pra produzi-la, essa exige de quem a produz tempo, dinheiro e pesquisas extensas. É decorrente dessa necessidade monetária que ele é viável apenas a um grupo seleto da população.
Já a cultura popular pode ser considerada qualquer manifestação vinda do povo, seja dança, literatura, música. É daí que surgi a industrial cultural, que para Adorno.
O conceito de técnica na indústria cultural só tem em um comum o nome com aquele válido para as obras de arte. Este diz respeito à organização imanente da coisa, à sua lógica interna. A técnica da indústria cultural, por seu turno, na medida em que diz a respeito mais à distribuição e reprodução mecânica, permanece ao mesmo tempo externa ao seu objeto. A indústria cultural tem o seu suporte ideológico no fato de que ela se exime cuidadosamente de tirar todas as consequências de suas técnicas em seus produtos. Ela vive, em certo sentido, como parasita sobre a técnica extra artística da produção de bens materiais, sem se preocupar com a determinação que a objetividade dessas técnicas implica para a forma interartística, mas também sem respeitara lei formal da autonomia estética.
Para ele a indústria cultural é a integração deliberada, a partir do alto, de seus consumidores, forçando assim, a junção dos domínios, que por sinal foi separado há milênios. Essa separação seria uma arte superior e outra inferior. Tal separação acarretou prejuízo para ambas.
É nesse momento que suspendemos as diferenças entras as culturas e a entendemos como hibrida.
Estudo de caso
As tirinhas analisadas do jornal O Estado de São Paulo foram Frank & Ernest, de Bob Thaves, Minduim, de Charles M Schulz, O melhor de Calvin, de Bill Watterson, Recruta Zero, de Mort Walker e Turma da Mônica, de Maurício de Souza. Já do outro jornal analisado, o jornal Folha de São Paulo, Piratas do Tietê, de Laerte, Daiquiri de Caco Galhardo, Níquel Náusea, de Fernando Gonsales, Mundo Monstro, de Adão Iturrusgarai e Garfield, de Jim Davis. Todas estas do dia 05 de novembro de 2013, de seus respectivos jornais.
A nacionalidade dos cartunistas, de forma análoga, há uma predominância de estrangeiros no jornal do O Estado de São Paulo, sendo quatro deles norte-americanos, apenas com a exceção de Maurício de Sousa. Na Folha de São Paulo, ocorre o inverso. Há uma valorização dos cartunistas brasileiros e apenas Jim Davis, cartunista de Garfield é dos Estados Unidos.
Sob o conteúdo das tirinhas, três publicadas pelo jornal Folha de São Paulo possui assuntos semelhantes, quanto ao sexo e libido, ainda que as abordagens temáticas diferentes. Estas, por sua vez, transmitem um tom mais ideológico mais explícito, como exemplo da tira de Adão Iturrusgarai, em que a esquerda e direita do campo político é objeto de ironia. Em contrapartida, o outro jornal estudado traz em suas tiras, conteúdos mais ligados ao cenário social das pessoas, como superstição, diferenças de linguagem e responsabilidade social.
Comparando as duas tiras que se sobressaem quanto à nacionalidade de seus criadores (Mauricio de Sousa no jornal O Estado de São Paulo e Jim Davis para Folha de S. Paulo), ambas têm como personagens figuras que diferenciam as características humanas, como o gato Garfield, que por sua vez, possui uma capacidade intelectual de pensar na ação da tira, e a disputa de um anjo e o diabo, obra de Maurício com personagens da Turma da Mônica. Estas se identificam com o público infantil, já que foram transformados em desenhos animados e figuras conhecidas na televisão.
Em se tratando de dois cartunistas brasileiros, dentre eles, Laerte em Piratas do Tietê e Maurício de Souza com a Turma da Mônica, a linguagem verbal não é valorizada, deixando que a imagem fale por si só. A de Laerte, uma espécie de tentáculo sai da tela de um computador e suga uma cabeça, submetendo-se a dependência e o comodismo do homem diante da máquina, da tecnologia. Já a do Maurício de Sousa, um cofre cai na cabeça de um anjo, na qual é rebatida para o diabinho que ri, diante da cena. Duas questões são levantadas: o conflito ente o bem e o mal e as consequências do apego material em nossa natureza humana.
De modo geral, os quadrinhos apresentados pelo jornal O Estado de S. Paulo tende a ter mais textos escritos do que o jornal Folha de S. Paulo, em que a valorização imagética é mais presente. A Folha de São Paulo também apresenta disponibilidade de quadrinhos em seu site. Já para a o Estado de S. Paulo, nenhum espaço foi destinado para a publicação.
Considerações finais
As histórias em quadrinhos têm uma ampla participação no processo histórico da literatura e imprensa brasileira. É também um símbolo que demarca a mistura de diversas culturas e situações sociais difusas em pequenos quadrados de desenhos. É um instrumento de leitura de base das escolas brasileiras, mostrando a sua importância para o ensino pedagógico, mas cativa as mais diversas faixas etárias. Como cultura híbrida, há uma mescla de variedades temáticas que são apresentadas de modo intertextual entre as HQs.
Por conta de ser um produto cultural, as histórias em quadrinhos sofrem influências ideológicas. A ideia de que tudo o que é de fora, que é estrangeiro se sobressai aos padrões nacionais, como vemos no jornal O Estado de S. Paulo e a publicação de cartoons norte-americanos. Nos anos 2000, outro tipo de história em quadrinhos que se difundiu no campo brasileiro é o mangá, provinda da cultura japonesa. Há uma necessidade, portanto, de que tirinhas brasileiras sejam mais trabalhadas como projeto pedagógico nas escolas, de acordo com nosso contexto sociocultural.
Esse tipo de narrativa também pode servir de instrumento para o jornalismo, como vimos na criação do jornalismo de história em quadrinhos. É possível, por meio desta, transmitir informações de modo mais flexível.