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⭐ Piracicaba, 2 de abril de 2025 ⭐

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Foto de Dr.ª Juliana Previtalli

Dr.ª Juliana Previtalli

Cardiologista e ecocardiografista

Victor

Passava os dias irritado, sem paciência com os funcionários, ansioso e triste. Não gostava que lhe falassem e dormia demais, assim que chegava em casa do trabalho. Acordavam-no para jantar e, logo, voltava à cama. Victor Stinchelli, 37 anos, sofria de abstinência nicotínica. Os sintomas da abstinência do cigarro variam de pessoa a pessoa, considerando o grau de dependência. Esse conjunto de reações desconfortáveis que Victor experimentou, que também pode incluir dor de cabeça, dificuldade de concentração e aumento do apetite, é denominado síndrome de abstinência da nicotina. Tais reações são passageiras e tendem a desaparecer em algumas semanas.

Sua última tentativa para livrar-se do vício nos cigarros iniciou-se no final do ano de 2024. Poucos meses antes, temeu pela vida enquanto aguardava o resultado da biópsia de um nódulo na corda vocal, felizmente, benigno. Porém o impacto mudaria sua vida, pois o revestiu de determinação. Gisele, a esposa companheira há 10 anos, fez o papel de madrinha, apoiando-o. Converteram-se à Igreja Quadrangular. Lá, sentiram-se acolhidos, apoiados e amparados. Imbuída de fé, Gisele, também, fizera a penitência de abster-se de açúcar e de doces para conseguir a graça ao marido.

Victor nascera numa família de fumantes. Recorda-se da mãe, das tias, dos tios e dos primos reunidos na Praia Grande, ao redor de uma mesa, jogando tranca e fumando cigarros a noite inteira. Despertou-lhe o desejo de fumar na adolescência aos 17 anos. Pegava, escondidos, os cigarros da mãe e levava-os, aos amigos, nas pescarias na Represa Tamanduá, em Santa Maria da Serra —— a fumaça ajudava a espantar os mosquitos. Dos 10dez jovens que experimentaram, juntos, os cigarros, três3 se tornaram-se fumantes até os dias atuais. Um estudo surpreendente, publicado no Nicotine and Tobaco Research, estimou a taxa de conversão em fumantes, ou seja, o risco da experimentação, como atividade recreacional, se tornar uma prática diária, uma necessidade compulsiva. O número é de 68% — pelo menos 3três em cada 5cinco pessoas que experimentam cigarros, pela primeira vez, se tornam fumantes diários, mesmo que temporariamente. Dar um trago num cigarro só para experimentar pode ser um caminho sem volta, o que ajuda a confirmar a importância de se prevenir a primo-experimentação dos cigarros.

Sua luta contra o cigarro vem de muitos anos. Conseguira permanecer oito meses longe deles em 2019, após tratamento com a vareniclina, medicamento indisponível atualmente. Num descuido, durante a festa de Réveillon, pegara,  da prima Débora, um paieiro e, em pouco tempo, voltara a consumir 20 cigarros por dia. Certa vez, a filha Manuela, aos 7 anos, anunciou que largaria a chupeta e que ele deveria abandonar os cigarros. Ela cumpriu a promessa, mas o pai a decepcionara.

Trabalhou, alguns anos, na Caterpillar depois que finalizou o curso técnico em mecânica de produção no SENAI. Chegara a cursar um semestre de engenharia mecânica na EEP, porém resolveu largar a faculdade e empreender. Aos 28 anos de idade, abrira, com um sócio, a VM Metais, onde produz vergalhões para a construção civil.

Desta vez, exitoso, segue, confiante e orgulhoso, 90noventa dias sem os cigarros. Gisele conta que Victor se transformou — está sereno, dedica tempo de qualidade à família e passou a preparar, diariamente, o café da manhã em casa. Gostam de frutas, de café e de pão com ovos mexidos. Frequenta a academia de seis a sete vezes por semana e, assim, não ganhou peso. Os vínculos familiares de amor sustentaram-no.