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⭐ Piracicaba, 4 de abril de 2025 ⭐

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Foto de João Carlos Goia

João Carlos Goia

Gerente do Senac Piracicaba, jornalista pós-graduado
em mídias e mestre em educação

A arte reinventada em tempos de isolamento social

Tendo atuado ativamente na área artística, durante muitos anos em minha vida, especificamente com música e teatro, tenho prazer em acompanhar a dinâmica e evolução destes setores, bem como a luta diária dos profissionais envolvidos nessas cadeias produtivas, especialmente, a forma como buscaram superar as adversidades impostas pelo isolamento social este ano, que impactou expressivamente, setores como turismo, eventos e espetáculos artísticos em geral.

Fico muito satisfeito ao testemunhar o avanço em Piracicaba, principalmente da milenar arte do teatro, que podemos constatar por meio da maturidade e realização da 15ª edição do Fentepira, Festival Nacional de Teatro de Piracicaba, que em 2020 acontecerá de forma virtual, rompendo definitivamente as limitações de espaço físico, levando espetáculos de qualidade para qualquer canto do mundo, garantindo o acesso gratuito à cultura para todos.

No Senac, iniciamos este ano, no dia 16 de março, a 15ª turma de formação profissional de atores, exatamente um dia antes do início da quarentena.

Durante esse curso e quase oito meses de atividades educacionais remotas, desprendemos considerável esforço para troca com nossos alunos, acerca da dinâmica do mundo atual, considerando principalmente, que hoje, inúmeros canais e possibilidades de lazer, cultura e entretenimento, disputam o mesmo espectador, ser este midiático e multiconectado, que neste momento encontra-se inclusive, sobrecarregado de informações recebidas através de suas redes sociais, provedores de conteúdos como Netflix e da internet de forma geral.

Como as artes de forma geral estão inseridas na cadeia produtiva denominada como economia criativa, assim também ocorre com o teatro, que é a base de formação para todos os artistas, independente do veículo e formato que irá atuar. Importante que tantos atores experientes, como iniciantes do produzir teatral, façam a leitura de cenário, que indica claramente que as montagens clássicas e tradicionais teatrais, encontram-se no quadrante que entendemos como tendências frias, visto que já não conseguem atrair grandes públicos e interesse, principalmente dos mais jovens, tendo que enxugar os recursos, elenco, produção, afim de não amargar prejuízos, claro, o que compromete diretamente a qualidade do espetáculo.

Entenda-se aqui, que estou me referindo ao fazer teatral profissional, o que precisa gerar caixa, lucro, custear despesas e não ao amador, que segue outra proposta e dinâmica, de levar arte voluntária ao público, onde quer que ele esteja.

Muitas décadas atrás, o alemão Karl Valentim escreveu um curto texto, onde questionava,“Por que todos estes teatros vazios?” Como resposta e de forma simples e direta, apontava “Simplesmente, porque o público não vem. Culpa de quem? Unicamente do Estado.” Claro que este brilhante autor critica de forma voraz e ao mesmo tempo tragicômica, o problema de toda classe artística, propondo a criação do “Teatro Obrigatório” como solução a tal impasse.

Deixando a crítica de Valentin de lado, prefiro ater-me aos fenômenos e dinâmicas sociais vigentes, que demonstram claramente uma forma transformada de consumo de arte.

Numa sociedade pontuada pela informação, pelo conhecimento e por acelerado avanço tecnológico, temos uma necessidade instalada de interatividade, ou seja, quanto maior a possibilidade de interferência, de coparticipação e coautoria, maior o interesse e, principalmente, o apelo comercial.

Como a arte então tem suma importância para a formação das pessoas é importante garantirmos que ela acompanhe tal transformação, para que desta forma, consiga sobreviver.

Nossos alunos das duas turmas em andamento neste momento, levaram o teatro através de canais como YouTube para seu público, não deixam de desenvolver as competências necessárias à formação do ator, bem como, produzindo e realizando seus trabalhos em formato eletrônico/virtual.

Neste contexto, a criatividade foi elemento indispensável para um resultado satisfatório.

O que cabe a nós neste momento, enquanto artistas teatrais é refletir sobre inúmeras questões, como por exemplo: como podemos, então, diante desse cenário de vida virtualizada, onde ocorre a troca da forma de arte “tradicional” pela mediação artística tecnológica, imaginar uma sociedade evoluída, culta e reflexiva?

Como podemos conceber que os adolescentes e os jovens tenham interesse por pintura, música erudita, dança, teatro, e outras atividades, se não os estimulamos a tal experimentação dentro dos meios que estão inseridos, deixando, dessa forma, espaço aberto para os conteúdos e formatos diferenciados que os bombardeiam a cada instante?

Como podemos, nós, artistas e educadores, combatermos o efeito e a atitude de desvalorização das formas de expressões artísticas, permitindo, assim, o assassinato intelectual da sensibilidade e da criatividade?

A partir dessas reflexões, penso que talvez nos seja coerente, utilizar os melhores recursos desse cenário midiático para, dessa forma, garantir um nível satisfatório de interesse das pessoas, por meio de um modelo que consiga convergir, permitindo um melhor aproveitamento a partir de tal fusão.

A arte, com seu papel e importância histórica na formação humana e que jamais será reduzida a nada e a tecnologia que, certamente, não cessará seu avanço e apresentará a todos, de forma cada vez mais acessível, a experimentação e a simulação de possibilidades antes inimagináveis, considerando que o estar em casa faz parte deste novo normal.

Levantai então artistas e ide ao mundo pregar vossa arte, independente do meio e do formato utilizado.