Departamento de Documentação e Transparência preserva memória política da tragédia que deixou pelo menos 50 mortos no Centro de Piracicaba
Há 55 anos, às 13h15 de 6 de novembro, Piracicaba presenciava uma das principais catástrofes de sua história. O Edifício Luiz de Queiroz, o Comurba, se transformava em pó em plena praça José Bonifácio. A queda do imóvel provocou pelo menos 50 mortes e até mesmo a mudança na legislação nacional. Uma comissão para atender as famílias atingidas foi criada na Câmara de Vereadores de Piracicaba, que recebeu manifestações de pesar de várias cidades.
Concebido como a “marca” do desenvolvimento de Piracicaba, o Edifício Comurba remetia às linhas do tradicional edifício Copan, de São Paulo. Apesar do nome original ser Edifício Luiz de Queiroz, o apelido surgiu em referência à Companhia de Melhoramentos Urbanos (Comurba), responsável pela obra. Ele ocupava uma ampla área entre as ruas São José e Prudente de Moraes, onde hoje fica o Poupatempo e a Caixa Econômica Federal.
Passados 55 anos da tragédia, é consenso entre historiadores e empresários do setor imobiliário que a queda do prédio paralisou o crescimento vertical da cidade, que, por várias décadas, teve de conviver com os restos do Comurba expostos na praça José Bonifácio”, explica Bruno Didoné de Oliveira, diretor do Departamento de Documentação e Transparência da Câmara.
Bruno conta que a descoberta de documentos no acervo da Câmara sobre o Comurba é recente. “Temos uma equipe no departamento responsável pela digitalização do acervo, cujo trabalho diário inclui a catalogação, classificação e higienização. Por conta destes aspectos, eles ficam atentos aos assuntos a serem catalogados e, durante esse trabalho, sempre surgem descobertas relevantes sobre da história de Piracicaba”, completa. O acervo de leis da Câmara, entre 1948 e 1990, é estimado em dois milhões de páginas.
No processo de pesquisas nos arquivos da Câmara, a equipe do Departamento de Documentação e Transparência localizou diferentes manifestações de entidades e associações pela tragédia, como também 71 votos de pesar e protestos de Câmaras paulistas e mineiras.
Do material recebido, o então presidente da Câmara de Santos, Julio Moreno, escreveu que ao assumir sua cadeira de vereador marcou sua posição contrária àqueles que, detentores de riqueza, desejam aumentá-la, prejudicando os menos afortunados.
Por isso, abri campanha contra alguns construtores e incorporadores de prédios e apartamentos, os quais, abusando da boa fé dos incautos, gente simples, firmam com eles contratos que não cumprem”.
Segundo Moreno, por meio do deputado Pedro Aleixo, foi apresentado na ocasião um projeto de lei em que o presidente da República, marechal Castelo Branco, remeteu ao Congresso Nacional a regulamentação na construção de edifícios. “Porque se já houvesse uma lei disciplinando a construção de prédios de apartamento, uma fundação projetada para 10 pavimentos não teria recebido 14 andares, como ocorreu em Piracicaba, evitando-se a tragédia que a ganância de criminosos, como a conivência não sei de quem, fez desabar sobre a Noiva da Colina com o sacrifício de numerosas vidas”.
A lei federal 4.591 foi publicada pela presidência da República em 16 de dezembro daquele mesmo ano. Ela dispõe sobre o condomínio em edificações e as incorporações imobiliárias. No entanto, não há qualquer referência no texto sobre a proibição quanto ao número de andares em edificações verticais.
Comissão
Aprovado em votação do plenário em 16 de novembro daquele ano e de autoria do vereador José Alcarde Corrêa, o requerimento 353/1964 propõe a criação de uma comissão municipal, composta de pelo menos três membros, para atender às necessidades urgentes surgidas entre as famílias das vítimas.
Não há, entre os arquivos localizados pelo Departamento de Documentação, maiores detalhes sobre o trabalho da comissão. No entanto, quem ainda possui algumas lembranças do desastre é o advogado, jornalista e professor Antonio Messias Galdino, 80, assessor parlamentar no gabinete do vereador Carlos Gomes, o Capitão Gomes (PP). Galdino presidiu a Câmara de 1975 a 1977. Quando o Comurba caiu, ele trabalhava na FOP (Faculdade de Odontologia de Piracicaba), na rua Dom Pedro 2º, 627, além de ser colaborador do Jornal de Piracicaba.
Segundo Galdino, a comissão para auxiliar as famílias era presidida por Miguel Bisogni, rotariano e gerente do Banespa (Banco do Estado de São Paulo).
Eu estava na Faculdade de Odontologia. Entrava ao meio-dia. Ouvi um estrondo, sai no corredor e vi a nuvem de poeira subindo. O prédio já estava com uma altura bem visível, era majestoso e arrojado, modelo de arquitetura. Isso causou uma comoção enorme”, conta.
No documento localizado pela Câmara sobre a criação da comissão de auxílio aos familiares há a justificativa para a sua criação. O texto diz que a catástrofe de proporção calamitosa enlutou o povo da cidade e que “a maior parte dos infelizes que tombaram no momento, cumpriam o seu dever de trabalhador honrado, os quais pertencem a famílias menos favorecidas pela sorte.”
O mesmo requerimento considera ainda a questão psicológica “enfruenciada” por razões lógicas dos fatos, consequentemente o terrível estado de nervos, bem como o sentimentalismo de toda a Piracicaba e até mesmo dos povos das cidades vizinhas.
Das manifestações de solidariedade e votos de pesar que chegaram à Câmara no período, chama a atenção o teor do requerimento de pesar da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, enviado pelo deputado José Felício Castellano. Na justificativa, consta a seguinte descrição: “absolutamente dispensável qualquer justificativa. A extensão e a profundidade do golpe sofrido pelos piracicabanos atingiram todo o povo paulista”.
Em 10 de novembro daquele ano, os deputados Pacheco Chaves, Maurício Goulart e Paschoal Ranieri Mazzilli ocuparam os microfones durante sessão da Câmara dos Deputados, em Brasília, para comentar a queda do Comurba. “O número de feridos é muito grande e os danos incalculáveis”, disse Chaves.
Tenho lá alguns dos meus mais queridos amigos”, lembrou Goulart. “Devo manifestar a Piracicaba a solidariedade da Presidência da Casa”, completou Mazzilli, que presidia o Legislativo Federal.
Também chegaram votos de pesar do gabinete do vice-governador do Estado de São Paulo e da Câmara Municipal de São Paulo, e dos deputados paulistas Vicente Botta, Lino Morganti, Leonidas Umburanas e Lucio Casanova Neto.
Em resposta às manifestações, o ofício enviado pelo presidente da Câmara de Piracicaba, Lázaro Pinto Sampaio, mencionava que “constarão dos arquivos da Casa, com especial carinho, as palavras de conforto e de estímulo vindas de todas e das mais remotas plagas, e das mais variadas entidades públicas e particulares, como uma coroa de flores a tornar mais pesado o luto das famílias de Piracicaba e de toda a população”.
História
Segundo o Memorial de Piracicaba, publicação do jornalista Cecílio Elias Netto, o Edifício Luiz de Queiroz começou a ser construído em 1950, sendo que 14 dos 15 andares estavam prontos. Porém, apenas o Cine Plaza, no andar térreo, estava em funcionamento, o que diminuiu o impacto quanto ao número de mortos.
Naquela mesma semana, a Revista Manchete trouxe duas páginas sobre o assunto, na reportagem Os empreiteiros da morte:
A população de Piracicaba, aterrorizada, viu ruir como um castelo de areia metade do arranha-céu que era o seu orgulho”.
A edição de 15 de novembro do jornal Diário de Piracicaba informa que o Edifício Luiz de Queiroz se “tornara motivo de orgulho dos piracicabanos e, que era, dentro da nossa paisagem arquitetônica, símbolo do nosso progresso, em espectro sepulcral da dor e da consolação.”
A remoção total dos entulhos do edifício ocorreu apenas na gestão do prefeito João Herrmann Netto (1977-1982), que aproveitou parte do material para aterrar uma área próxima à rua do Porto, transformando-a na Área de Lazer do Parque da Rua do Porto, que em 2010 recebeu denominação em sua homenagem. As causas e os culpados pela queda nunca foram identificados.
Ainda conforme Galdino, a remoção dos entulhos teve início em 1972, na gestão do prefeito Cássio Paschoal Padovani, que havia acabado de assumir o Executivo, após a cassação de Francisco Salgot Castillon.
Os restos do Comurba ficaram como um fantasma por vários anos. Depois de iniciada a remoção, na gestão de Padovani, houve a sua continuidade, pelos outros prefeitos”, completa Galdino.
Há diferentes versões na imprensa sobre o número de mortos: algumas publicações mencionam 45, enquanto outras informam como 54 casos fatais. Além dos operários do edifício, entre as vítimas estavam funcionárias da bombonière do Cine Plaza, que funcionava no térreo, e de pessoas que circulavam pela praça no momento da queda.
Por meio de pesquisa no Siave (Sistema Eletrônico de Proposituras da Câmara) há uma indicação enviada ao Executivo no ano de 2013, em que o vereador Capitão Gomes sugeriu a construção de um memorial às vítimas do edifício.